sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"Andiamo a casa!?" - devaneio sobre a palavra casa



"A Casa é onde estou ...a casa é onde quero estar!"

Esta é a canção que me vem em mente quando o trem parte da estação... mais uma entre tantas, passadas e outras esperadas... o que relato aqui...sonhei (talvez) quando adormeci dentro trem...

Na plataforma vejo que os olhos já distantes  permanecem em mim e... inacreditavelmente sei onde e como olham...

O trem se move... sinto medo ... um vazio talvez... e a costumeira vontade de chorar sob controle a olhos nus.. dentro de mim choro convulsivo...
 Lembro da sensação da minha primeira partida...quando deixei a casa dos pais para morar noutro país ...a sensação é igual... como se ali na estação  ficasse para trás minha casa...

Os olhos meus e de quem fica perdem-se na plataforma da estação já longínqua ... e eu vejo-os ainda!
Basta um instante para que eu já não esteja mais ali...

Estou dentro do carro...
 e depois de um dia no mar e passeios singelos por uma terra de sonhos...
 tenho a nítida impressão de ter um dejavu...ao ouvir a frase pronunciada docemente:

"Andiamo a casa?"

Casa?

Suspiro profundamente em meu dissimulado íntimo blindado... não sei se o dono dos doces olhos com sua alma sensível percebe o mergulho que involuntariamente sou conduzida ao ouvir a palavra que me diz...
e assim ...nas maravilhas mil de minhas fantasias e ilusões sou sugada a um país de nome casa...
 como se caísse no tal túnel da delirante personagem ...
 o que ecoa durante a queda:

CASA...CASA...CASA...CASA...CASA...CASA...CASA...

Instantaneamente pedaços de canções vem a memória... misturados e em diferentes volumes... é o ritmo que a palavra casa me conduz...e lá estou eu na infância... enquanto desenho uma casa cantando entre lápis de cores e pedaços de papéis...

"era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada..."

http://www.youtube.com/watch?v=ipjly96rzxA

estranho pois a impressão de casa que tenho é justo esta ...sem teto...sem nada...
mais uma vez a infância dá seu ar da graça falando forte a minha alma ...é a súbita sensação que percorre meu íntimo diante da queda ...

"mas era feita com muito esmero na rua dos bobos número zero!"

sim eu sou uma boba... e assim no mergulho inusitado do sábado a noite ...onde todo mundo espera algo...
outra canção ...mescla-se a anterior até sobrepujá-la...

"já morei em tanta casa que nem me lembro mais, eu moro com meus pais..."

A música é da adolescência, só não lembro se da real ou da tardia...

http://www.youtube.com/watch?v=FCwmj-R3h8k

Quantas casas me vem na lembrança, num piscar de olhos dos olhos que me olham ... a casa dos pais...
quanto tempo não moro na casa dos pais...mas lá é sempre um porto seguro, ainda que nem exista mais, ainda que os pais partam para terras distantes onde trens e aviões não podem alcançar...
em algum momento, mais cedo ou mais tarde voltamos para casa deles, a casa dos que são e foram eles em nós... O alicerce, a estrutura da casa que carregamos em nós... E na palavra lá estou eu em casa, família reunida a mesa..."Lar, doce, lar..." e na parede o quadrinho já velho"hei de vencer..." ainda que a pintura da parede não esteja de acordo... o lar sempre acolhe, mesmo sendo uma remota lembrança de um passado que lembra uma utopia, um sonho impalpável...Na involuntária queda que persiste, mergulho nos diversos cômodos de tal palavra...alguns um pouco incômodos de serem pensados...

Casa, casa, casa...

"Quem casa, quer casa..."

"E ela por que não se casa, não se casou...não se casará?"

De que casa fala o homem que tenho sabe-se lá até quando ao meu lado?
De que casa?

No meio do mergulho sinto cheiro de pão quente e ouço latidos de cachorros...
sim este sem dúvidas é um dos maiores indícios de casa, de lar que tive nos últimos tempos....
Me sinto sugada pela saudade do lar que me habitei a ter ao lado de meus fiéis companheiros de 4 patas....mas volto rápido do delírio para de volta refletir de forma consciente sobre a casa a que se refere quem me fala...mas me perco no caminho de volta e o que vejo é uma pixação da janela do trem:

"Deus salve minha doce ilusão, Deus salve meus doces sonhos..."

"-Salve!"
é assim também que as pessoas se cumprimentam vez ou outra no local que estou...ou estava...
como se precisássemos ser todos salvos deste mundo insano de casas sem fim...

Vejo que o carro procura o melhor ângulo, o melhor ponto, o local ideal bem próximo a casa!

Não, eu não estou sonhando!
( ou estou?)
Temos uma casa e é para lá que vamos! ...
O que mesmo que eu lhe respondi?
Ah sim...

"- Por mim é indiferente ir para casa agora ..."

Não...eu não posso ter dito isto...
é obvio que eu impensadamente me enganei ...
eu estou louca para ir para casa ...

Ao ver que o carro está estacionado constato mais uma vez que a casa de que me fala ou falava o homem dos olhos de amêndoas doces, o homem ao meu lado... não está distante...

 ah então esta tal de casa não é um mito...uma utopia...algo impalpável... ilusória...

"Vedi!? Oggi ho parcheggiato vicino a casa!"

Subimos os degraus a mágica cidade de loucas e circulares vielas de casas caiadas com flores nos balcões...

Nos olhamos e rimos...

"Sarà che oggi troviamo a casa nostra!"

Encontrar a casa...a nossa casa...que delícia...a proposta inconscientemente acoplada a dúvida da busca...numa cidade nas alturas de brancas nuvens ...
Passamos pela igreja, pela pequena praça...luzes coloridas no caminho e ali logo a frente ....sei que ao final da ruela temos que dobrar a esquerda como indica nossa posição política.
No fim do beco o número 11 de tanta inspiração indica o destino final.

Lá dentro tudo tão acolhedor que me permito acreditar que cada detalhe, cada coisinha ali colocada foi escolhida a dedo por mim, por nós...ou talvez por alguém que tenha o nome muito semelhante ao meu!
As almofadas com querubins, o prato branco com sutis corações dourados preso a parede...o quadro com o Santo Antônio...e os móveis herdados de família...e juro até que chego a reconhecer num bordado os meus pontos tortos.

Me sento no sofá, puxo uma cadeira para esticar as pernas...e nem sei bem ao certo porque lhe revelo que uma das coisas que mais amo nesta vida é chegar em casa e me atirar ao sofá...este ato sempre faz com que eu me sinta em casa...
Vemos um filme, outro e mais outro...eu cochilo (com discrição) várias vezes...
Até esqueço do devaneio sobre a palavra casa, de tão aconchegante que é o momento...
Na cena de um dos filmes onde uma linda atriz italiana canta enquanto bota as crianças para ninar...recordo de novo da palavra...e dos desenhos de crianças...e ainda que eu não tenha os peitos da atriz gosto da cena...tanto como gosto de crianças...e me permito pensar que ali mesmo sob aquele teto secular existem crianças a ninar, crianças para contar histórias...os olhos me olham olhar a cena do filme e parece que podem ler meus pensamentos...sim ele sabe no que estou pensando ... ao olhar a cena do filme é como se visse também meus pensamentos... E assim involuntariamente expresso escrachadamente através de meus olhos sonolentos o humano desejo de toda mulher... é impossível dissimular o que se sente quando se tem sono.

Saímos para jantar...sensação de que conheço a todos que andam por ali ...e que todos já nos conhecem...
me permito observar de fora a cena em que estou inserida... o cenário em que estou... os simpáticos e poéticos personagens... sou tragada de volta para o momento, para dentro da cena...
decido por os pés no chão, para não voar de novo... esfriou e há um certo vento...pode ser perigoso voar... lhe observo ... que lindo está ... e me olha e fala...sim...eu ouvi ele dizer:

"quando torniamo a casa guardiamo altro film?"

 ah a palavra de novo
casa... casa...casa...
sim ele sente-se em casa, pois até rouba comida do meu prato e molha o pão no molho levando a boca...

e voltamos a casa
 nos colocamos os dois juntos ao sofá para ver um outro filme...
sim estamos em casa...

reflito mais uma vez sobre o humano e cotidiano ato de estar em casa...
viver em uma casa,
ter um lar é coisa boa!

Saboreio aquele segundo como um alfajor...
como fazia com as azeitonas na janta e na minha infância...
degusto como quem degusta os melhores vinhos e me entorpeço
como quem flutua
e lembro que eu flutuei céu a fora ao pôr de sol

sim a vida é louca e dá voltas...e quantas voltas ela deu para nós estarmos ali?

Caio na real e digo a mim mesma, que o vinho está fazendo efeito e que ali não é minha casa, lembro que casa é uma coisa que eu tenho lutado por anos para não ter, que casa é raíz, e que eu nunca quis ser árvore...
Triste dedução...eu não tenho casa...
 a música do cantor de minha terra vem como se trazida pelo vento ou por alguma estrela errante... volta...

 "A casa é onde estou, a casa é onde quero estar..."

Sim eu estou aqui!
eu quero estar aqui!
ah pára pensamento...pára!

Meus pensamentos voam...e eu coloco de novo os pés no chão
este chão que piso mais sei que não é meu...

"Eu sinto os meus pés no chão! Eu estou aqui! AQUI!"

Como me disse o mestre  é preciso pensar, raciocinar e ver-se fora:

Aonde eu vou?
Como vou?
Onde e como eu quero chegar?
Devo fazer com tanto entusiasmo e olhar nos olhos dos que estão em volta...sem formalismo...e arriscando fazer coisas que ainda não faço...e descobrir por que ainda não consigo fazer...e das coisas que faço sem pensar...por que as faço???

A casa existe...
O lar sempre sobrepuja tudo!
e eu em paz me vejo de fora, deitada comodamente no sofá, envolta por seu abraço,  olho em seus olhos...

Me vem a lembrança seus olhos próximos aos meus
e que ele me perguntou o que me faltava... eu como sempre falei algo impensado e respondi sem responder...afinal, sempre tenho a sensação de que me faltam tantas coisas ou de que tenho tanto...

Mas ali...eu vi que o que me faltava era isto...
a casa...o amor...
singelo ou louco...
o círculo para me proteger... o muro redondo... e ali naquele instante perfeito onde nada parecia faltar lembrei das crianças olhando pela janela do trem, das crianças brincando e correndo em volta das árvores...e da busca nas linhas da mão para descobrir  se elas virão algum dia...
O que me falta acho que pode ser isto ...a família... a casa... as crianças, os cachorros...e o sofá...

algo que case com minhas artísticas, zens e indignadas ideias, falta a casa dos sonhos tornar-se real...com tudo que tenho direito, bons filmes, flores na janela, um delicioso sofá e uma agradável companhia...

volto a palavra, a canção, a estação...
ao olhos que me olham profundamente depois das habituais correrrias que sempre envolvem minhas partidas...
mergulho mais uma vez nos seus olhos de amêndoas doces para não esquecer
da morada de sua alma,
 do vento delicioso de sua terra
daquele sol a acariciar minha pele...
do ar puro a entrar livremente meus pulmões
da luz
e de todas as cores e sabores

e sinto o desejo de ali estar,
 e a vontade de ir é já de voltar...

Parto com a sensação de que ali nos seus olhos eu sempre terei morada certa...
(mesmo que isto seja apenas um sonho meu, uma ilusão)
dentro do trem tudo o que me permito é pensar em casa...
e sonho um dia chegar em casa...
estranho é que a sensação não é de que estou voltando para casa,
 mas sim de que acabo deixar o lar,
 o doce lar dos sonhos meus...

"a casa é onde estou..."

Estou no trem...

 "e o trem partiu da estação..."


"A casa é onde quero estar..."

No trem tudo o que penso é em casa e ...

Onde quero estar?
Com quem quero estar?
Como quero estar?

O que me falta? O que?
Já sinto falta de tudo e de todos ...
Desperto ao ouvir alguém dizer:

"tutto a posto!"

instintivamente respondo

"- Sí sí síiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..."

raciocino bem e digo então:

"Nooooooooooooooooooooo..."


"andiamo a casa!"

...

"o tempo é minha casa..."
e um novo tempo começou depois desta partida
deste sonho
deste devaneio
deste mergulho na casa ...


A casa é uma ilusão...

e que Deus salve e proteja minha doce ilusão...


http://www.youtube.com/watch?v=j6rw0e5er7k